O Sem-Rosto
(Tempo de leitura: 3 minutos)
Gosto muito da cultura e mitologia japonesa; e me chama a
atenção uma divindade que possuem. A divindade chamada por "Noppera-bo", traduzido geralmente
para “Sem-Face” ou “Sem-Rosto”.
São entidades (há vários "Noppera-bo") muito tímidas, de
pouco contato com os seres humanos. Quando aparecem se transformam em pessoas comuns, às vezes passando por alguém da família diante da vítima, antes
de fazer sua face desaparecer.
Há algumas literaturas que resgatam esse ser, entre elas, a
minha favorita: “A Viagem de Chihiro” (2001) do Studio Ghibli. Nessa animação é
mostrada uma versão do Sem-Face. Ele muda o seu comportamento de acordo
com as atitudes de quem está a sua volta, também possuindo o poder de absorver certas
características das vítimas a qual devora.
Em uma ótica alinhada à apresentação do anime está a minha
identificação com o Sem-Face: é um ser solitário que parece sustentar-se sobre
as emoções das pessoas que ele encontra.
Recordo-me das inúmeras vezes e lugares onde as
características “do outro” sempre foram aceitadas, toleradas e absorvidas por
mim. Dos mais diversos perfis e tipos de pessoas: do líder religioso ao ateu.
Perambulando entre um grupo e outro em grandes eventos, mas sem a sensação de
pertencimento a qualquer um.
Considerando que esse ser vai sendo preenchido pelos sentimentos das pessoas próximas de si: agradecimento, bondade, vaidade, soberba, culpa, ganância... o Sem-Face acaba me lembrando um ditado bem conhecido: “Diga-me com quem andas e eu direi quem tu és”.
E aqui eis um ponto final: o muito consumo às vezes me faz
vomitar. E só resta o vazio e a solidão de um deus numa tempestade torrencial.
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